2.

Kon’nichi wa, Ruby

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1. Abrindo Este Livro

Finja que você abriu esse livro (embora você provavelmente tenha aberto esse livro), e encontrou uma enorme cebola bem no meio da dobra do livro. (Eu pedi ao fabricante do livro que incluísse a cebola.)

Logo você pensa, “Wow, esse livro vem com uma cebola!” (Mesmo que você não tenha um apreço particular por cebolas, eu tenho certeza que você consegue apreciar a logística de se enviar qualquer vegetal discretamente dentro de um suposto manual de programação.)

Então você se pergunta: "Espera um pouco. Eu pensei que isso fosse um livro sobre Ruby, a incrível nova linguagem de programação do Japão. E embora eu consiga apreciar a logística de se enviar qualquer vegetal discretamente dentro de um suposto manual de programação, por que uma cebola? O que eu devo fazer com ela?

Não. Por favor não pense sobre isso. Você não precisa fazer nada com a cebola. Deixe a cebola de lado e deixe ela fazer algo com você.

Eu vou ser direto com você. Eu quero chorar. Lamentar. Me lamuriar docemente. Este livro é um guia comovente de Ruby. Isso significa código tão lindo que lágrimas serão derramadas. Isso significa contos nobres e verdades melancólicas que vão fazer você acordar na manhã seguinte nos braços desse livro. Abraçando-o forte por todo o dia. Se necessário, improvise uma bolsa para o (Comovente) Guia de Ruby do Why, assim você poderá ter sempre a tenra companhia deste livro.

Você deve soluçar pelo menos uma vez. Ou no mínimo suspirar. Se não der certo, a cebola vai fazer tudo isso acontecer para você.

2. A História do Cachorro

Vamos ver se a história a seguir comove você:

Um dia eu estava caminhando numa dessas ruas movimentadas cheias de revendas de carros (isso foi logo após meu casamento ter sido cancelado) e achei um cachorro órfão na rua. Um cachorro preto, peludo, com olhos verde-avermelhados. Eu meio que me senti órfão também, então eu peguei alguns balões que estavam amarrados a um poste em uma revenda e amarrei eles na coleira do cachorro. Eu decidi, então, que ele seria meu cachorro. Eu dei a ele o nome de Bigelow.

Nós fomos comprar alguns Biscrocks para o Bigelow e, depois, seguimos para minha casa, onde nós poderíamos sentar em cadeiras reclináveis e ouvir Zygotic Mynci de Gorky. Oh, e nós também tivemos que parar em um bazar para comprar uma cadeira reclinável para o Bigelow.

Mas Bigelow não tinha me aceitado como seu mestre. Então, cinco minutos depois, aquele cachorro estúpido mudou de calçada e eu o perdi. Logo, considerando que ele já esteve perdido uma vez, com essa eram duas. Eu diminuí o passo em direção a uma vida de Biscrocks e uma cadeira reclinável extra. Eu tive um cachorro por cinco minutos.

Estúpido cachorro traidor. Eu me sentei num banco e joguei pinhas em uma estátua de três ovelhas atravessando uma ponte. Depois disso, eu chorei por horas. As lágrimas simplesmente vieram. Agora existe algo comovente para começar.

Eu fico imaginando aonde ele foi parar com todos aqueles balões. Aquele cachorro maluco parecia uma festa com patas.

Não foi muito depois que eu fiz meu próprio Bigelow. Eu imprimi um bando de páginas sobre Ruby. Artigos achados na Web. Eu dei uma olhada neles no trem indo para casa um dia. Folheei elas por cinco minutos e desisti. Não me impressionou.

Eu sentei, olhando para o mundo através da janela, um liquidificador gigante misturando grafite e ferro derretido bem na minha frente. Este mundo é muito grande para uma linguagem tão pequena, pensei. A pobrezinha não tem chance. Não tem pernas para se sustentar. Não tem braços para nadar.

Lá estava eu. Um pequeno homem em um frágil e pequeno trem (e eu ainda tinha um dente-de-leite naquela época) em meio a bilhões de pessoas vivendo numa bola azul flutuante. Como eu posso enfrentar Ruby? Quem me garante que eu não vou morrer engasgado com meu celular mais tarde naquela mesma noite? Why está morto, Ruby ainda vive.

A lápide:

O que é isso na traquéia dele?
Oh, olha, um Nokia!

É só a minha sorte. Finalmente vou ter um gostoso e duradouro cochilo embaixo da terra, só para ser constantemente incomodado pela Cânone de Pachelbel tocando incessantemente no meu estômago.

3. Nasce o Sol Vermelho

Então, agora você está se perguntando porque eu mudei de idéia em relação ao Ruby. A resposta rápida é: rolou química.

Como quando você encontra Alguém na faculdade e ela parece com alguém que costumava bater na sua cara com um pincel quando você era criança. E então, impulsivamente, você conclui que esse novo alguém é provavelmente hostil. Você faz careta quando vê o cabelo dessa pessoa. Você desliga o telefone bruscamente nos momentos cruciais das piadas dela. Você resolve usar seu pula-pula bem onde ela está querendo caminhar!

Seis meses depois, de alguma forma, você e esse Alguém estão sentados a beira de uma fonte tendo uma conversa perfeitamente normal. A face dela não lembra mais seu nêmeses infantil. Você conheceu o gêmeo bom. Rolou química.

Logo, apesar de que eu provavelmente devesse estar martelando seus dentes com todo o hype sobre Ruby e todos os acrônimos minuciosamente preparados que a acompanham para todo lugar (afiando as gargantas dos seus chefes e dos chefes do seus chefes), em vez disso eu vou te deixar velejar. Vou deixar você mergulhar no código, me intrometendo ocasionalmente com minhas próprias experiências. Vai ser bem fácil, bem natural.

Eu devia, entretanto, te oferecer alguma espécie de motivação. Então, cara pálida, eu vou lhe dar minhas três melhores razões para aprender Ruby e te deixar em paz.

  1. Saúde mental.

    Vitamina R. Vai direto para a cabeça. Ruby vai lhe ensinar a expressar suas idéias através de um computador. Você estará escrevendo estórias para uma máquina.

    Habilidades criativas, gente. Dedução. Razão. Acenar com a cabeça inteligentemente. A linguagem vai se tornar uma ferramenta para melhorar a comunicação entre sua mente e o mundo. Eu notei que muitos usuários experientes de Ruby parecem pensadores mais claros e objetivos. (Em contraste a: altamente preconceituosos e grosseiros.)

  2. Um homem em uma ilha.

    Ruby nasceu no Japão. O que é bizarro. O Japão não é conhecido por seu software. E como linguagens de programação são largamente escritas em inglês, quem iria imaginar uma linguagem vinda do Japão?

    E ainda assim, aqui temos Ruby. Contra todas as adversidades, Yukihiro Matsumoto criou Ruby em 24 de Fevereiro de 1993. Pelos últimos dez anos, ele tem obstinadamente trazido Ruby para uma audiência global. É triunfante, nobre e tudo mais. Apóie a diversidade. Ajude-nos a dobrar a Terra, só um pouquinho.

  3. Grátis.

    Usar Ruby não custa nada. O código do próprio Ruby está aberto para todo o mundo inspirar/expirar. Até esse livro é de graça. É tudo parte de uma enorme doação que deveria ter alguma venda casada junto.

    Você poderia pensar que nós faríamos você comprar aspiradores de pó ou tempo de uso, ou falsos Monet. Você poderia pensar que haveria uma palestra de 90 minutos onde o dono da empresa aparece no final e força você a fechar negócio.

    Não. É grátis.

Com isso, é hora do livro começar. Você pode pegar seu marca-texto e começar a arrastá-lo sobre cada palavra cativante a partir desta sentença. Eu acho que tenho spray de cabelo e dinheiro de brinquedo o suficiente comigo para me sustentar até a página final.

4. Como Livros Começam

Olha, se você algum dia já leu um livro, você sabe que nenhum livro pode começar direito sem uma quantidade exorbitante de sinergia. Sim, sinergia. Talvez você não soubesse disso. Sinergia quer dizer que eu e você devemos cooperar para fazer desta leitura uma ótima experiência.

Começamos o livro nos dando bem na Introdução. Este companheirismo, esta sinergia, nos impulsiona pelo livro, comigo guiando você em seu caminho. Acene com a cabeça ou dê uma risadinha para indicar o seu progresso.

Eu sou Peter Pan segurando a sua mão. Vamos, Wendy! Segunda estrela à direita e em frente até o amanhecer.

Um problema aqui. Eu não me dou bem com gente. Eu não seguro mãos muito bem.

Qualquer um da minha equipe vai lhe dizer. Nas Cerimônias de Abertura Deste Livro (um evento com Buffet e arquibancadas), eu descobri que os sanduíches de pepino não eram servidos em guardanapos de tecido. Como resultado, a manteiga não se ajustou aos pepinos direito… De qualquer forma, Eu fiz uma grande cena e ateei fogo a alguns caminhões de propaganda do lado de fora. Eu deixei um holofote em pedaços, e coisas do tipo. Eu dava risadas maníacas extremamente altas até o final daquela noite. Foi uma bagunça e tanto.

Entretanto, já que eu não me dou bem com gente. Eu não convidei ninguém além de mim para as Cerimônias de Abertura Deste Livro. Então não foi tão embaraçoso assim. Eu mantive o caso sob panos quentes e ninguém jamais ficou sabendo do que aconteceu.

Então você tem que saber que sinergia não significa exatamente sinergia nesse livro. Eu não posso com a sinergia normal. Não, neste livro, sinergia significa raposas em quadrinhos. O que eu quero dizer é: este livro vai começar com uma quantidade exorbitante de raposas em quadrinhos.

E eu vou contar com você para transformá-las em sinergia.

Virar a página.